Morrer deve ser como dormir. Você nem vê acontecer. Tenho pensado em como será a minha hora, em quanto tempo ainda tenho (ou não) aqui. O homem, com toda a sua grandeza intelectual, não conseguiu medir isso. Ninguém sabe, ninguém espera. Todos vivemos como se fôssemos eternos. O fato de eu estar pensando sobre isso, antes de uma tendência suicida, é uma forma de valorizar o presente, de dar valor ao que e a quem realmente interessa. Se o meu momento chegar agora, não terminarei estas linhas, minha casa ficará por limpar, meus livros por ler, meus amores por amar, a Dolores por alimentar. Revirarão minhas coisas, descobrirão o que não quero revelar, segredos públicos que não existem. Nada disso é meu, além de mim mesmo. Quantas pessoas chorarão sobre o meu corpo inerte? Quantas se refestelarão? Será que pagarão as dívidas que ainda não paguei?
A Ayda disse que ela quer mais é viver. Uai, eu também! Aliás, estamos todos vivendo, bem ou mal. O que ela quis dizer é que quer aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer. Só que isso é o que menos se faz. Todos nós, Nenhum de nós. Talvez alguns poucos de nós.
Estou tentando encontrar um sentido para a vida, algo a que me prender. Não quero morrer agora, longe disso. Só estou tentando encontrar uma forma de fazer com que a minha existência não seja vã. Quero deixar algo, escrever um livro, ter filhos e poder vê-los crescer. Acreditar que não estou fazendo nada para que isso aconteça me entristece.
Se pensar um pouco, desisto da eternidade: não há motivos para buscá-la. Mais vale deixar boas lembranças no coração das pessoas que me cercam. Para que servirá o
status, a fama, o dinheiro, se isso não me permitirá mais anos de vida? E ainda existe o outro lado da moeda, no qual esse tipo de vida traz consigo novos “problemas”. É por essas e outras que não devo me apegar a ideais alheios ou a amores vazios e congêneres.